Cobenge discute papel da formação do engenheiro para a inovação

51º Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia, no Rio, debate a formação e o exercício profissional e a contribuição da profissão para o desenvolvimento

A pequena cidade de Santa Rita do Sapucaí, no Sudoeste de Minas Gerais, é um ponto fora da curva na realidade brasileira. Apesar de contar com apenas 40 mil habitantes, está na ponta no desenvolvimento tecnológico e exporta serviços para grandes empresas e cidades. O sucesso da economia local se deve à presença do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) no lugar, cujo exemplo foi exposto em painel realizado durante o 51º Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia (Cobenge 2023), que aconteceu entre os dias 18 e 20 deste mês no Rio de Janeiro.

O objetivo do Congresso foi aprofundar a discussão sobre a formação e o exercício profissional dos engenheiros, durante os três dias de encontro no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ), no Maracanã. Mas a plenária “Inovação e Formação: Relação Universidade-Indústria” foi além e tocou em temas cruciais para esse aprimoramento. O caso do Inatel foi, portanto, emblemático de uma nova relação necessária entre instituições de ensino e o mercado não só para que os alunos sejam mais estimulados, mas também tendo em vista o desenvolvimento brasileiro.

Não faltaram exemplos de projetos bem sucedidos apresentados pelo diretor da instituição, Carlos Nazareth Motta Marins. A instituição já desenvolveu parcerias com diversas empresas de tecnologia como a Foxconn, Intelbrás e Epson, graças a seu modelo que dispõe de um centro de pesquisa interno em que seus próprios professores atuam como consultores. Há demandas como de cidades inteligentes, indústrias que pretendem entrar na era do 4.0 e todo tipo de infraestrutura que precisa do funcionamento de seus dispositivos em um modelo interoperável, principalmente com a adoção da internet das coisas (IoT).

“Nossa proposta é oferecer ao mercado engenheiros recém-formados, mas com experiência. Ou seja: que entrem no mercado preparados. Acreditamos que isso se dá pela relação entre o Inatel e as empresas, criando um ambiente que possa colocá-los alinhados com o que há de mais moderno”, explica o diretor.

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Desde a década de 1960, com a criação Escola Técnica de Eletrônica, a primeira da América Latina, que o município mineiro começou a ter um desenvolvimento rápido. Hoje já há no lugar cerca de 170 empresas de eletroeletrônica, que não só garantem a empregabilidade aos alunos, como movimentam a economia local, onde sobram empregos. Por isso, passou a ser conhecida como Vale da Eletrônica.

O painel foi enriquecido com a participação do presidente da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), Jerson Lima Silva, que contou como o órgão de fomento vem trabalhando para facilitar a integração entre a academia e as empresas. Seu papel é muito importante por proporcionar justamente o fornecimento de recursos para que os projetos se desenvolvam, mas como ele mostrou para haver efetividade a própria agência procura uma atuação mais cirúrgica e objetiva. Um exemplo disso é o programa Doutro Empreendedor, que tem como objetivo estimular a empregabilidade e até o crescimento empresarial de egressos de programas de doutorado, com bolsas e recursos para a aplicação numa incubadora, por exemplo.

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É um processo que exige mudanças por parte das universidades e também das empresas, que precisam contratar mais pessoas com alto nível de formação. Como ele frisou, o país só investe atualmente 1,21% de seu PIB em ciência, tecnologia e inovação, o que é pouco frente a países como Israel e Coreia do Sul, que quase colocam 5%. Além de mais recursos, o estado e o país precisam de uma estrutura que garanta maior aproveitamento das pesquisas na aplicação junto ao mercado. Para isso, a Faperj está planejando criar no âmbito do Rio uma versão da rede Embrapii.

“É um desafio fazer a ponte entre o que está sendo produzido pelas universidade em todas as áreas e a aplicação”, declarou o presidente da Faperj.

A ideia entusiasmou o mediador do painel, o professor Mario Borges Neto. “Na esfera federal, há o CNPq na pesquisa, a Capes na pós-graduação e a FINEP na inovação. Há um tripé que uma agência de fomento regional como a Faperj está fazendo bem no Rio. A ideia da Embrapii regional é muito importante porque engenheiros são responsáveis em transformar a ciência em produto e na geração de riqueza”, destacou o professor.

O painel contou também com a participação do presidente do Clube de Engenharia, Márcio Girão, que apontou algumas razões para o gargalo entre as universidades e o mercado, que emperram a inovação no Brasil. Lamentavelmente, o país chegou a figurar na 57ª posição no ranking da  Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), uma agência especializada das Nações Unidas, apesar de ter um robusto parque de universidades e centros de pesquisa.

Um passo importante, segundo ele, seria a volta da contratação de professores que mantenham o vínculo com o mercado de trabalho, que complementariam o papel do corpo docente de dedicação exclusiva. Há de se fortalecer também o papel dos Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) que possuem uma capacidade maior de integração entre a pesquisa básica e seu posterior desenvolvimento em soluções tecnológicas. Nesse processo, o país também deve adotar o modelo dos centros de excelência, também com o intuito de se firmar essa ponte.

Para Girão, o governo tem um papel fundamental no estímulo à inovação e na promoção do desenvolvimento tecnológico. Através de suas demandas, deve estimular esse processo. O volume de investimentos também precisa ser alto para dotar o país de infraestrutura capaz de fazer a roda da economia girar e consequentemente a engenharia é fundamental em toda essa engrenagem. Como boa notícia, ele citou o lançamento da fase 3 do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 3) pelo presidente Lula e o projeto da FINEP de criar uma plataforma digital responsável pelo mapeamento das instituições de ensino e pesquisa no país.

“Uma pesquisa feita pela Fiesp mostrou que entre as indústrias do Estado de São Paulo, apenas 29% tinham planos de inovar nos próximos anos e só 18% pensam na Indústria 4.0, que é o futuro do setor. A inovação é questão de competitividade e de soberania do país e todos os setores precisam adotar mudanças para promover uma melhor integração e soluções tecnológicas para nosso desenvolvimento”, afirmou Girão.

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