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Nova ordem mundial exige nova estratégia de desenvolvimento para o país

Professor Ronaldo Carmona defende reflexão sobre o papel do Brasil no mundo, a partir do advento da multipolaridade e da quarta revolução industrial

A formação de uma nova configuração da ordem mundial é uma oportunidade única para Brasil buscar um posicionamento estratégico adequado às suas necessidades de desenvolvimento socioeconômico e em adaptação ao novo arranjo de forças do cenário global. Essa foi a perspectiva defendida pelo professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Gomes Carmona, em palestra durante reunião do Conselho Diretor do Clube de Engenharia na última segunda-feira (19/02). Ele apontou como razões para essa reflexão sobre o papel do país no mundo a multipolaridade que se desenha no reequilíbrio das potências internacionais e a maior importância da concorrência tecnológica como fator de poder, a partir do advento da quarta revolução industrial em curso.

Apesar das imensas vantagens que o Brasil possui nesse novo cenário, principalmente por suas dimensões continentais, há, segundo o especialista em geopolítica, desafios que o país precisa enfrentar para adotar uma estratégia de sucesso. Um deles é o próprio atraso na formulação desses objetivos por parte das elites e o outro é a acirrada divisão político-ideológica fomentada entre a população em geral, o que dificulta a coesão nacional em torno de um projeto.

“Há uma disputa por supremacia, por poder mundial, por hegemonia, diferente da disputa clássica da Guerra Fria, que era uma disputa mais marcadamente ideológica, ou seja, uma disputa pela expansão ou pela exportação do seu sistema político e social. Essa moldura sistêmica, digamos assim, que a gente vê no cenário Internacional, do ponto de vista do chamado Sul Global e especialmente do Brasil, é um cenário bastante interessante, uma vez que é um cenário que tende, portanto, à multipolarização e à existência de variados polos de poder”, ressaltou Carmona.

Na avaliação do professor, está cada vez mais claro que o fim do bloco soviético não trouxe uma automática hegemonia incontestável dos Estados Unidos. O crescimento da China, sobretudo na disputa pela liderança tecnológica, já provoca uma ruptura dessa ordem. O surgimento das chamadas “gureras por procuração”, em que as potências não estão diretamente envolvidas, mas sim indiretamente, também é um fenômeno que coloca em cheque a Pax Americana. São os casos dos conflitos na Ucrânia, no Oriente Médio e a tensão em Taiwan. As consequências da pandemia de Covid-19 são outros fatores que levam a uma desconcentração maior do poder no mundo.

Apesar de a disputa por poder envolver a corrida tecnológica, o professor acredita que o Brasil não deve abrir mão de suas vantagens competitivas, como as riquezas naturais e a capacidade de produção de alimento. Entretanto, país deve adotar uma estratégia que leve à sua neoindustrialização se aproveitando da estrutura de pesquisa que já construiu e também da sua biodiversidade. As transformações e rupturas pelas quais o mundo passa são uma oportunidade para trilhar esse caminho  já dentro desse novo contexto.

“Olhando as três revoluções industriais anteriores, podemos afirmar que essa disputa deriva do fato de que quem dominar a base técnica, ou seja, a base tecnológica inovativa dessa quarta revolução industrial se estabelecerá em condições singulares para o domínio em escala mundial. Não é à toa que a questão da proteção das economias nacionais voltou com enorme força”, destacou o palestrante.

O evento possibilitou um debate com a participação de conselheiros do Clube, que destacaram a importância crucial da engenharia nesse processo. Para o presidente da entidade, Márcio Girão, os desmantelamento das empresas do setor e do segmento de engenharia de projetos não deixa de ser um reflexo das disputadas geopolíticas e da interferência estrangeira contra os interesses nacionais.

“É muito comum ouvirmos que a ciência voltou, mas ninguém fala que a engenharia voltou, tendo em vista que a engenharia brasileira está destruída. Você não pode ter uma ideia inovadora, se você não tiver um engenheiro para implementar”, afirmou Girão.

Mestre e doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), Carmona coordena o Núcleo de Defesa e Segurança Internacional do CEBRI – Centro Brasileiro de Relações Internacionais e o Grupo de Pesquisa sobre Estudos de Guerra (GPEG), na ESG.

O professor  também assessora a diretoria de inovação da FINEP. Foi chefe da Assessoria Especial de Planejamento (ASPLAN) do Ministério da Defesa unidade responsável pela revisão quadrienal dos documentos de Defesa Nacional.

Assista à palestra no vídeo abaixo:

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