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UFRJ concede título de doutor honoris causa a Lima Barreto

Homenagem póstuma reconhece contribuição do autor, que cursou Engenharia na Escola Politécnica e foi impedido de se graduar pelas dificuldades financeiras e o racismo

As dificuldades financeiras e o preconceito racial impediram que o escritor Lima Barreto (1881-1922) concluísse o curso de Engenharia Civil pela Escola Politécnica, mas sua contribuição para a cultura nacional fez com que postumamente ganhasse o reconhecimento da universidade à qual a instituição está vinculada. Cerca de 100 anos após sua morte, o Conselho Universitário (Consuni), órgão máximo da UFRJ, decidiu conceder título de doutor honoris causa ao autor negro, na última quinta-feira, 25/05. A honraria é conferida a personalidades nacionais e internacionais eminentes, mesmo que não tenham concluído uma graduação.

A sugestão da homenagem a Afonso Henriques de Lima Barreto veio da professora Beatriz Resende, da Faculdade de Letras da UFRJ. Lima Barreto foi um escritor brasileiro de destaque na fase pré-modernista da literatura. Nascido em Laranjeiras, Zona Sul do Rio, em 1881, era filho de Joaquim Barreto, um topógrafo, e Amália Augusta, professora primária. Ficou órfão de mãe aos sete anos de idade, quando ela morreu de tuberculose. O ano de 2022 foi marcado pelo primeiro centenário do falecimento do artista.

Segundo o parecer do processo, entre os 14 e 16 anos de idade prestou concurso de acesso ao Colégio Pedro II e, habilitado, prosseguiu com os estudos para concorrer a uma vaga na Escola Politécnica, hoje da UFRJ. Em 1897, Lima Barreto iniciou os estudos no curso de Engenharia Civil, que naquela época funcionava no prédio localizado no Largo de São Francisco, no Centro do Rio.

Durante o curso, Lima Barreto experimentou adversidades com colegas e professores do curso. Pela condição social e cor da pele, sofreu perseguições de docentes, sendo a mais conhecida aquela praticada por Licínio Atanásio Cardoso, professor da cadeira de Mecânica Racional. De acordo com o primeiro biógrafo da vida de Lima Barreto, Francisco de Assis Barbosa, o escritor sofreu discriminação racial. O racismo e a perseguição tornaram-se evidentes e Lima Barreto, em seu diário, anotou: “É triste não ser branco”. Na condição de preto e pobre, continuaria a ser reprovado nas disciplinas.

Em 1903, abandonou o curso de Engenharia devido à condição do seu pai e à  necessidade de prover o sustento dos três irmãos. No ano seguinte, prestou concurso para escriturário do Ministério da Guerra. Em 1905, ingressou no jornalismo com reportagens que escreveu para o Correio da Manhã. Dois anos depois, fundou a revista Floreal, que teve apenas quatro números publicados.

Em 1914, o escritor foi internado no Hospício Nacional de Alienados, atualmente o Palácio Univesitário, da UFRJ, e retornou em 1919. Na segunda internação redigiu Diário do Hospício.

Lima Barreto é autor das obras Recordações do Escrivão Isaías Caminha (romance de estreia do autor, em 1909, que narra a história de um jovem mulato do interior vítima de sérios preconceitos raciais), Triste Fim de Policarpo Quaresma (publicada em 1915, sua obra mais conhecida trata dos ideais e frustrações de um funcionário público metódico e nacionalista fanático), Numa e a Ninfa (1915), Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Os Bruzundangas (1923) e Clara dos Anjos (1948). Ele também escreveu contos como O homem que sabia javanês & a nova Califórnia.

Vítima de ataque cardíaco, Lima Barreto morreu com apenas 41 anos, nove meses depois da Semana de Arte Moderna. 

Segundo a professora Beatriz Resende, o legado de Lima Barreto permanece. “Francisco de Assis Barbosa, Nicolau Sevcenko, Antonio Arnoni Prado e outros professores levaram de forma definitiva o autor carioca aos estudos universitários. A academia e o mundo das Letras começavam a reconhecer sua importância. A leitura da obra continuava, no entanto, distante do leitor comum que Lima Barreto quisera atingir”, ponderou.

A obra de Lima Barreto foi escrita na primeira década do século XX, no período da Primeira República denominado de Pré-Modernismo. Além de Lima Barreto, destacam-se Euclides da Cunha e Monteiro Lobato.

“Lima Barreto adotou um estilo literário singular e escrevia suas obras com simplicidade. Por opção, muitas vezes ignorou as normas gramaticais e de estilo, o que certamente provocou descontentamento dos meios acadêmicos e dos conservadores. Certamente isso rendeu a Lima Barreto severas críticas dos letrados tradicionais da época”, afirmou o professor Clynton Lourenço, relator do processo no Consuni.

Segundo Carmen Tindó, professora aposentada da Faculdade de Letras, Lima Barreto foi um escritor preocupado com as questões de seu tempo. “[Ele] sempre se preocupou com os marginalizados, com os que viviam apartados dos interesses e benesses do poder central. Escreveu sobre os subúrbios, sobre as cenas cotidianas do povo do Rio. A Rua do Ouvidor era um dos seus espaços preferidos, não por ser um local luxuoso da belle époque carioca, mas por poder ser confrontado com os espaços pobres da cidade”, afirmou Tindó, ainda atuante na pós-graduação.

“Quer seja nas suas obras, crônicas ou contos, Lima Barreto explorou as injustiças sociais e as dificuldades das primeiras décadas da República. Foi um dos romancistas pioneiros na denúncia do racismo e dos preconceitos contra os negros no Brasil”, conclui o parecer.

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