Catedrais do período medieval deixaram legado de façanha técnica e riqueza artística

Catedral de Notre-Dame, em Paris. Crédito: Anyul Rivas/Creative Commons
Catedrais do período medieval deixaram legado de façanha técnica e riqueza artística
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Templos monumentais, construídos em época de atraso tecnológico, são de formidável beleza e continuam ensejando estudos e debates

A Idade Média é comumente associada a uma “época das trevas”, em que predominava a ignorância. No entanto, estudos mais aprofundados têm demonstrado que o período que sucedeu a queda do Império Romano na Europa e antecedeu o advento do Renascentismo na realidade foi de importantes avanços e descobertas para a Humanidade. Entre os legados medievais, tem grande destaque a construção de monumentais catedrais, que até hoje são obras admiráveis. De tão magníficas e perenes, essas construções vêm merecendo pesquisa e debate, como o promovido pelo Humanidades na Engenharia, que recebeu o engenheiro mecânico e professor João Ignacio Ibañez para falar sobre aspectos técnicos, históricos e artísticos dessas edificações.

As Catedrais, uma pequena história” foi o título desse episódio do projeto do Clube de Engenharia, que procura aliar os saberes humanísticos com as Ciências Exatas. Essa convergência de conhecimentos, apesar de envolver cadeiras universitárias tão díspares, foi fundamental para entender o fenômeno da construção desses gigantescos templos numa época em que os instrumentos eram bastante precários, bem como a vida, que era bem curta devido às doenças e à fome.

Mas, segundo Ibañez, apesar dos retrocessos ocorridos depois do fim do Império Romano em termos intelectuais e científicos e também nas condições de salubridade, os países da Europa Ocidental não só preservaram em mosteiros grande parte do conhecimento clássico como realizaram descobertas inovadoras. No caso das edificações, apesar da herança romana ter levado a construções pouco arejadas e lúgubres, os arquitetos e engenheiros, a partir do século X começaram a conceber obras mais leves. 

Com o tempo desenvolveram projetos com arcos mais altos, que permitiram o uso do vidro no lugar das paredes. Essas “janelas” puderam ser ocupadas por vitrais, formados por pedaços coloridos que formavam imagens, como cenas bíblicas. Portanto, além de permitirem a entrada de luz nos templos, eles tiveram uma função educativa, tendo em vista o analfabetismo generalizado da população.

O estilo de construção romana, baseada nas construções antigas dos gregos, como o panteão de Atenas, evolui através do arco romano, dando maior amplidão aos templos pagãos. Mas eram pesadas, exigiam paredes espessas e com pouca abertura. Não permitia iluminação e elevação”, ressalta o professor Ibañez.

A partir do século XII, os bispos investiram em novo estilo de construção, como forma de demonstração de poder. Surgem as catedrais que remetem à cátedra, que era a posição que esses altos sacerdotes ocupavam. No entanto, essas obras foram fruto de estudo, capacitação e trabalho árduo de artesãos e mestres que se especializaram em técnicas construtivas e artísticas, como a de fabricação do vidro com cores muito específicas e no corte de pedra

Esse estilo caracterizado por construções elevadas, com abóbadas ogivais amplas e altas, permitindo a abertura para a instalação dos vitrais, foi muito mais tarde chamado de gótico. A denominação dada por iluministas tinha sentido pejorativo e remetia à influência “bárbara” dos godos, visigodos e ostrogodos. Nos dias de hoje, o termo é muitas vezes associado a trevas e é evocado por tribos adolescentes que se vestem de preto e cultivam hábitos notívagos.

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Catedral de Colônia, Alemanha. Crédito: Wikimedia Commons

No entanto, para a Idade Média, as catedrais góticas foram não só uma manifestação artística, mas consolidaram o poder da Igreja e fortaleceram os reis, cujas coroações eram celebradas nesses templos. O primeiro exemplar dessas gigantescas igrejas foi a de Saint-Denis, em Paris, na França, país que mais feitos realizou nesse estilo de construção, mas logo elas se espalharam por outros países. Não há como tocar no assunto sem lembrar a catedral de Colônia, na Alemanha, que sobreviveu à destruição da cidade na Segunda Guerra Mundial, e de Florença, erguida com originalidade com pedras coloridas. É também notável a riqueza estética dessas obras e seu poder de exaltar a elevação espiritual, o combate aos supostos maus espíritos, os detalhes dos altares e pisos muito bem trabalhados e, apesar da predominância dos temas sacros, não se pode negar também a influência pagã em alguns afrescos e esculturas, bem como a dos alquimistas na magia das cores dos vidros.

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Catedral Santa Maria del Fiore, em Florença, Itália. Crédito: Wikimedia Commons

Os vitrais e os afrescos foram usados porque a ignorância grassava. Era necessário que as pessoas que entrassem numa catedral vissem aquela iluminação maravilhosa e aprendessem a história sagrada”, explicou o palestrante.

O conselheiro do Clube de Engenharia Carlos Ferreira, que participou do programa como entrevistador, ressaltou a importância das corporações formadas pelos artesãos, chamadas de guildas, que possibilitaram os avanços técnicos para esse modelo de construção e a influência delas para o processo de centralização política.

O poder que a catedral emanava era o poder da Igreja. O rei que não fosse ungido dentro de uma catedral coroado, sem o aval do papa, não tinha valor nenhum, não tinha essa divindade associada a ele”, afirmou Ferreira.

A vice-presidente do Clube de Engenharia e coordenadora do projeto Humanidade na Engenharia, Maria Alice Ibañez Duarte, enfatizou o fato de obras colossais como aquelas terem sido feitas com instrumentos tão simples como a cunha, compasso, esquadro, fio prumo e plano inclinado e nenhum apoio de cálculo estrutural.

Para o professor, apesar da precariedade dos instrumentos, havia nas construções grande preocupação com a estabilidade estrutural e técnicas de estabilização das pedras, através do uso de argamassa, chumbo derretido ou até juntas metálicas para suportar o peso. 

Se eu fosse escolher um ícone para o projeto Humanidades na Engenharia, eu escolheria as catedrais, pelo que elas representam de caminho da humanidade em termos de conhecimento, seja pelo espírito de determinação e pela  espiritualidade. Foi berço para a coroação dos reis e a transmissão do poder se dava através delas. O que mais me assombra nas catedrais é sua permanência, como engenhosidade humana”, destacou Maria Alice.

Como bem explicou o historiador francês George Duby (1919-1996), no livro “O tempo das catedrais – A arte e a sociedade – 890-1420”, “por definição, a catedral é a igreja do bispo, portanto a igreja da cidade, e o que a arte das catedrais significou primeiramente na Europa foi o renascimento das cidades”. Foram dessa forma a ponte entre o mundo medieval e o moderno, sendo até hoje fundamentais para representar a alma de uma cidade, mesmo as mais novas, como Brasília, enriquecida com o templo desenhado por Oscar Niemeyer para seu eixo central. Por isso, as catedrais são responsáveis por tornar as cidades mais poderosas e inspiradoras.

Assista à íntegra do Humanidades:

Crédito da imagem em destaque: Anyul Rivas no link.

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