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Crescimento populacional e urbanização acelerada expõem limitações do planeta

Crescimento populacional e urbanização acelerada expõem limitações do planeta

Crédito: Chris LeBoutillier por Pixabay
Crescimento populacional e urbanização acelerada expõem limitações do planeta
Desastre em Maceió

Humanidades na Engenharia trata do peso das cidades gigantes e do Antropoceno sobre todas as condições biológicas e geológicas da Terra

Estima-se que o planeta tenha, atualmente, mais de 8 bilhões de habitantes, o que é oito vezes o número de humanos que vivam no planeta há pouco mais de 200 anos. Além da multiplicação no número de pessoas vivendo na Terra, assistimos a um incrível crescimento das cidades, que já comportam a maior parte da população terráquea. As duas vertentes causam enorme impacto sobre a memória geológica do planeta, ameaçam a biodiversidade e provocam efeitos climáticos até imprevisíveis. A modificação que a Humanidade exerce em todos os continentes caracterizam o Antropoceno, que tende também a ser guiada pela capacidade humana de atuar pela regeneração e preservação da natureza, conforme mostrou o geólogo e professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Rualdo Menegat, em palestra para o Humanidades na Engenharia.

O termo Antropoceno passou a ser mais popularizado através do trabalho do suíço Paul Crutzen (prêmio Nobel de Química de 1995) e se refere a uma época em que as atividades humanas começam a interferir no planeta de forma mais avassaladora. Apesar de não haver um consenso sobre uma data precisa para o início dele, é mais comum ser associado ao início da Era Industrial, época em que coincidentemente prevaleceu o mito da máquina irrefreável que dominaria a natureza.

Conforme explicou o professor, com raríssimas exceções, como a do economista inglês Thomas Malthus, praticamente ninguém acreditava no século XIX na finitude dos recursos naturais. Muito menos havia alguma preocupação ética com relação aos efeitos de uma exploração tão inconsequente dessas riquezas.

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Inundações estão ficando mais devastadoras com o efeito do aquecimento global. Crédito: Pixabay

Mas o fato é que essa visão não só perdeu força, como muitas vezes os efeitos nefastos da atividade humana sobre o planeta também fomentaram uma nova mitologia. Atualmente, parece para muitos que há uma vingança da natureza, uma insurgência contra os maus feitos do ser humano, o que também não deixa de ter seu viés mitológico. Mas diante das catástrofes que os efeitos climáticos extremos estão causando, não se pode mesmo tirar totalmente a razão daqueles que enxergam os fenômenos nesse viés “vingativo”. Secas prolongadas em algumas regiões, inundações em outras, são apenas alguns exemplos de uma suposta “revolta natural”, que está ficando cada vez mais agressiva.

Mas a racionalidade explica o Antropoceno de outra maneira. A começar quantificando as causas. Conforme mostrou Menegat, em 1970 havia no mundo apenas três cidades com mais de 10 milhões de habitantes. Hoje elas já são 33 e projeta-se para 2030, 43 megacidades, que somarão mais de 700 milhões de pessoas. Com ruas que mais parecem rios de gente, esse habitat humano perfura túneis, produz montanhas de lixo e despeja mares de esgoto nos corpos hídricos, muitas vezes sem tratamento. Os detritos, principalmente o plástico, vão formando sobre a Terra camadas que interferem na morfologia do território.

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Camadas de plástico anunciam nova época geológica. Crédito: Pixabay

As projeções para 2050 é de pelo menos mais 2 bilhões de habitantes sobre a superfície do planeta, mesma quantidade que as áreas urbanas vão ganhar. Conforme estas vão se conectando, não formam mais regiões metropolitanas, mas enormes eixos em que essas megalópoles se estendem. Na China, por exemplo, próximo ao delta do Rio das Pérolas, uma longa aglomeração humana englobando Guangzhou, Shenzhen, Hong Kong, e Macau, se estende por 220 quilômetros com mais de 130 milhões de habitantes.

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Urbanização muda a face da Terra. Crédito: Pixabay

Além de cobrirem vastas áreas, as cidades ganham uma característica tridimensional, com a exploração de seu subsolo, da camada superficial e da atmosfera. Mas pode-se incluir uma quarta dimensão, que é o tempo.

“Quando olhamos o conjunto planetário, vemos que as cidades formam uma película, uma camada delgada que capeia todos os continentes e podemos chamá-la de tecnourbesfera”, ressalta Menegat.

Esse domínio colossal da humanidade sobre o planeta, o Antropoceno, também tem afetado a atmosfera. A química dos gases que a compõe foi a principal responsável pela formação da vida no planeta, ao permitir que o calor emitido pelos raios solares não se dissipasse totalmente, sobretudo no período noturno. Água em estado gasoso, gás carbônico, metano, óxido nitroso e ozônio ajudam a regular a temperatura do planeta. No entanto, a partir da Revolução Industrial a queima de combustíveis fósseis, a princípio com o carvão e mais tarde com o petróleo, iniciou um processo de aumento da concentração de gás carbônico no ar.

Segundo o professor, em mais de 11.700 anos do Holoceno (época mais recente do período Quaternário), o planeta apresentou uma temperatura relativamente estável, o que permitiu inclusive o avanço das civilizações. No entanto, a maior concentração de CO2 na atmosfera já tem elevado o calor consideravelmente. Estima-se que atualmente a Terra esteja 1,2ºC acima das médias registradas antes da Revolução Industrial, sendo que esse aumento pode chegar a 4ºC até 2100.

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Secas mais frequentes são desafio para a humanidade. Crédito: Pixabay

Se por um lado os impactos são preocupantes e até assustadores, por outro, são espantosos também os avanços no conhecimento sobre a natureza para reverter a degradação. Há até um esforço concentrado em torno do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, que reúne uma gama de conhecimentos e dados de instituições científicas do mundo todo. O problema é que está cada vez mais evidente que o aumento das temperaturas não eleva tão somente a sensação de calor, mas o principal efeito são os eventos extremos cada vez mais frequentes e agudos, tais como tempestades, secas, furacões, nevascas, sem contar a elevação do nível do mar.

“Nós precisamos, mais do que nunca, de uma visão integrada dos geossistemas, dos ecossistemas, dos sistemas humanos e também dos sistemas agrários, da agricultura regenerativa, enxergar a cidade abastecida com sistemas agrários próximos a elas”, defendeu o palestrante.

Da mesma forma que o avanço científico e tecnológico gerou todo o impacto na natureza ao qual assistimos, o conhecimento também pode ser usado para a reversão e a regeneração dos efeitos nocivos já causados ao planeta. A educação também tem um papel fundamental no processo contra a degradação e de recuperação do equilíbrio ambiental do planeta. Sinal disso é o projeto do Laboratório de Inteligência do Ambiente Urbano (LIAU) de Porto Alegre (RS), que tem apresentado avanços na prevenção contra desastres naturais e numa maior inteligência comunitária por parte de moradores de localidades da capital gaúcha.

A visão de integração dos geossistemas proposta por Menegat, levou o conselheiro do Clube e coordenador do projeto Humanidades Carlos Ferreira a fazer uma intervenção e lembrar o conceito de Gaia proposto pelo cientista inglês James Lovelock, que filosofou sobre a influência da vida sobre as características geológicas do planeta. Também não fica distante da filosofia dos povos andinos, da Pachamama, ou Mãe Terra, que representa a natureza como um todo.

“Pacha Mama e Gaia são um sistema vivo. Fazem parte de uma percepção de que quanto mais Pacha Mama for respeitada, mais favorecerá a vida”, disse o engenheiro Carlos Ferreira.

A vice-presidente do Clube e coordenadora do Humanidades, Maria Alice Ibañez Duarte, concluiu que não há necessariamente motivo para pessimismo. 

“Esse recado do regenerativo, do retorno a um ponto mais equilibrado, é importantíssimo. Eu tenho uma profunda fé na ciência e na tecnologia. Assim como a ciência nos trouxe até o momento em que estamos, ela tem capacidade a um momento de equilíbrio também com o conhecimento”, avaliou Maria Alice.

Assista aqui ao programa:

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