Depoimento de Almirante Othon ao Memória Oral lança luzes sobre episódios da vida científica e política do país

Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva recebe a equipe do Memória Oral
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Soberania Energética

Engenheiro, considerado o pai do programa nuclear brasileiro, fala dos projetos em que atuou e da prisão pela Lava Jato

Considerado o pai do programa nuclear brasileiro, o Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva revelou em seu depoimento ao projeto Memória Oral, do Clube de Engenharia, que prepara um livro de memórias, em que vai narrar não só pontos de sua biografia como importantes episódios da saga nacional pelo domínio do ciclo de enriquecimento do urânio e de seu emprego como energia. Será uma oportunidade para revelar fatos históricos, detalhar esses avanços científicos e apresentar sua posição com relação ao processo que o levou à prisão, onde justamente começou a escrever o livro. Submetido a dois anos e meio de cárcere, ele não usou a fala para atacar seus algozes da Operação Lava Jato, nem para se enaltecer pelos feitos que alcançou na área científica, mas trouxe luzes para esclarecer fatos de sua trajetória que se confunde a soberania nacional sobre a energia nuclear.

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Usina de Hexafluoreto de Urânio (Usexa), no complexo militar de Aramar, em Iperó (SP). Crédito: Vladimir Platonow/Agência Brasil

Graças ao empenho do almirante e de centenas de engenheiros e técnicos que trabalharam no projeto desenvolvido em conjunto entre a Marinha e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) da Universidade de São Paulo (USP), o Brasil entrou para o rol dos poucos países que dominam a tecnologia de enriquecimento do mineral. É um processo por ultracentrifugação, considerado até mais avançado do que o de outras nações, conforme ele mesmo contou no depoimento. Na época em que estudou no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, despertou nele o interesse por buscar um modelo mais eficaz.

Por sua ousadia e pela notória oposição dos Estados Unidos a que outros países obtenham avanços científicos no campo nuclear, o Almirante Othon conta que passou a ser uma espécie de persona non grata para Washington. Também teria contribuído para isso, sua oposição a que o Brasil assinasse um termo adicional ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, proposto na época pelo governo Barack Obama. 

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Almirante Othon

Viram que o cara que foi contra era eu. Nas reuniões pesou contra mim. Fui processado por um relatório que fiz antes de ir para a Eletronuclear. Já estava escrito”, ressaltou o Almirante, que denunciou ao presidente Lula em 2010 a incompatibilidade de pontos do novo tratado com preceitos da Constituição brasileira, como a soberania e a inviolabilidade dos domicílios, que estavam sendo ultrajados pela proposta americana.

Tendo em vista o forte alinhamento das decisões da força-tarefa de Curitiba com os interesses do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, não se pode descartar a hipótese de uma real perseguição ao Almirante por influência de autoridades de Washigton, fatos que só a história poderá esclarecer totalmente. Quanto mais o tempo passa, surgem novas revelações de desmandos e vários tipos de ilegalidades praticadas no âmbito da Lava Jato, que o condenou em primeira instância a mais de 43 anos de prisão. Sua pena foi reduzida em revisão de segunda instância e no momento o militar aguarda com serenidade o julgamento de recursos que podem inocentá-lo.

O Almirante também contou como foi importante para o Brasil sua parceria com a Argentina no desenvolvimento do programa nuclear e da importância de uma maior integração do Brasil com seus vizinhos latino-americanos no campo científico. Além de ter contribuído para um passo inusitado, que foi o “Tratado Quadripartite”, de 1991, assinado pela Argentina, pela Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (Abacc) e Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que foi tanto uma vitória contra a desconfiança das potências mundiais como contra uma rivalidade histórica em relação aos argentinos. 

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Complexo de Aramar. Crédito: Creative Commons

Sua capacidade de realizar entendimentos também se destacou quando a Marinha resolveu aceitar sua ideia de iniciar o projeto de construção do submarino nuclear dentro do Campus da USP, no fim da década de 1970. Além de convencer os militares, em plena ditadura, a aceitarem a participação de cientistas independentemente de suas preferências políticas, houve uma praticamente inédita colaboração entre civis e militares. 

“O projeto começou assim como um arranjo pessoal. Hoje o centro de pesquisas da Marinha é no centro da USP e é uma jaboticaba, único lugar do mundo onde o centro de pesquisa das Forças Armadas fica dentro de uma universidade”, ironizou ele durante o depoimento em referência à fruta que só nasce no Brasil.

No depoimento, o Almirante evitou o fácil autoelogio e fez questão de ressaltar a importância da colaboração de professores para seu desempenho, como de colegas de farda e principalmente dos cientistas com os quais trabalhou. Também contou como o programa foi resultado da integração de diversas instituições de pesquisa.

“Tudo é feito em equipe, nada se faz sozinho. Os grandes projetos dependem de como a equipe se dedica e se integra”, contou o militar.

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Instalações do Centro Experimental de Aramar, na cidade de Iperó. Crédito: Creative Commons

Ele também prestou uma devida homenagem ao Almirante Álvaro Alberto que foi um precursor do projeto do submarino nuclear. Num trecho do depoimento, ele conta como o cientista e militar já falecido acabou virando assunto de uma conversa na cerimônia que marcou a assinatura da chamada Declaração de Iperó, no fim dos anos 1980. Na ocasião, o então ministro de Ciência e Tecnologia, Renato Archer, encontrou no lugar uma foto do almirante, que hoje dá nome ao CNPq, vestido de farda. Comentou com Othon o inusitado da imagem, pois não era como o mestre andar fardado, o que levou ambos a considerarem o quadro se tratar de uma fotomontagem. Mas a foto gerou uma certa descontração no ambiente e foi quase uma aparição sobrenatural naquele momento histórico.

“Há disputas internas e a Marinha diz até hoje que não foi eu, mas eu acredito em coisas sobrenaturais. Aquela bênção dele funcionou”, disse Othon, desmentindo qualquer rivalidade com o pai do CNPq.

O depoimento ao Memória Oral é também um incentivo aos jovens que estão ingressando na carreira de engenheiros a apostarem na profissão com toda a sua capacidade de realização de projetos grandiosos em benefício do país. 

“Aos engenheiros, eu digo o seguinte: vocês escolheram uma profissão formidável. É uma profissão que tem uma interferência com a vida da sociedade muito grande. Ela melhora a qualidade de vida coletiva”, destacou o Almirante. “Se eu nascesse de novo, eu optaria por engenharia mil vezes”, concluiu.  

Assista ao depoimento:

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