Estado do Rio busca reconhecimento de seu primeiro geoparque

Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba. Crédito: Projeto GpCL-RJ
Estado do Rio busca reconhecimento de seu primeiro geoparque
Soberania Energética

Projeto do Geoparque Costões e Lagunas, que abrange 16 municípios, terá sua diversidade geológica e cultural avaliada pela Unesco

O Estado do Rio de Janeiro pode ter em breve o reconhecimento pela Unesco de seu primeiro geoparque. Cerca de 20 professores e pesquisadores de diversas instituições estão empenhados a favor da candidatura do projeto Geoparque Costões e Lagunas do Rio de Janeiro junto ao órgão da ONU. Trata-se de uma área que abrange 16 municípios fluminenses entre Maricá e São Francisco de Itabapoana, que pode receber o título, estimulando o geoturismo, a preservação ambiental e o aprofundamento das pesquisas científicas.

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Monumento Costões Rochosos, em Rio das Ostras. Crédito: Projeto GpCL-RJ

Os geoparques são regiões com formação geológica de grande interesse para a ciência, onde normalmente há sítios arqueológicos e unidades de conservação, além de paisagens notáveis, sem necessariamente estarem isolados da ocupação humana. Ao contrário: concentram no seu território tradições culturais e até atividades econômicas que podem se harmonizar com a preservação da natureza. Por isso, o título dado pela Unesco pode ser uma alavanca para o turismo e a geração de emprego e renda, conforme ocorre nos cinco geoparques brasileiros já reconhecidos. São eles Caminhos dos Cânions do Sul (Santa Catarina e Rio Grande do Sul), Seridó (Rio Grande do Norte), Araripe (Ceará, Pernambuco e Piauí), Quarta Colônia e Caçapava do Sul (ambos no Rio Grande do Sul).

Até a decisão, que pode ser tomada já no ano que vem, muito trabalho foi feito por pesquisadores do estado para uma maior valorização dessa região de 10,9 mil km2, onde vive uma população de 1,8 milhões de habitantes. Desde o início deste século, há um movimento institucional voltado para reunir informações sobre os sítios de interesse geológico e proporcionar uma maior divulgação desse conhecimento junto à sociedade. Foi quando o Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro (DRM-RJ) criou o Projeto Caminhos Geológicos. A partir daí, o estudo do patrimônio geológico e da geodiversidade do nosso estado foi intensificado e, também, a preparação de material para a sinalização dos sítios e para o ensino nas escolas públicas.

Portanto, antes mesmo de a Unesco oficializar a categoria de geoparque em 2004, o estado do Rio de Janeiro já vinha consolidando a delimitação da região e a reunião de informações científicas e culturais do lugar. Esse processo facilitou a elaboração do projeto que está sendo entregue ao órgão da ONU, mas o trabalho dos pesquisadores capitaneados pela geóloga Kátia Leite Mansur, professora da UFRJ, é intenso. Nesse esforço, há também profissionais da UERJ, UENF, UFF, UFRRJ e USP envolvidos no trabalho de documentação. 

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Quilombo de Baía Formosa, em Búzios. Crédito: Projeto GpCL-RJ

Além do cumprimento das exigências feitas pela Unesco, estará em jogo na avaliação da entidade internacional as características geológicas únicas e de importância universal da região. Um ponto que deve pesar na escolha é o fato de um grande trecho da costa fluminense, que compreende a Região dos Lagos, preservar fenômenos geológicos que testemunham, digamos assim, a separação do continente sul-americano do africano, há cerca de 100 milhões de anos. 

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Estromatólitos da Lagoa Salgada. Crédito: Projeto GpCL-RJ

Também é de grande importância científica a presença dos chamados Estromatólitos, que são estruturas produzidas por bactérias, localizados em algumas lagunas da região, como a Lagoa Salgada, no limite dos municípios de Campos dos Goytacazes e São João da Barra. Estruturas como estas já existiam há 3,5 bilhões de anos e os micro-organismos que as produziram foram os responsáveis pela liberação de oxigênio para a atmosfera, possibilitando o desenvolvimento de formas de vida mais complexas ao longo do tempo. Poucos locais no mundo ainda possuem essas estruturas viventes, como na região do futuro geoparque, o que atrai a atenção de pesquisadores de diversos países.

“O reconhecimento do geoparque é muito importante para se fortalecer a preservação desses sítios, sem necessariamente criar um engessamento da região. Ao contrário, a medida deve estimular o turismo e gerar renda para os habitantes de forma sustentável”, observa a professora Kátia Mansur.

Um sistema lagunar belíssimo, as formações rochosas antigas, principalmente o pedaço da África que ficou por aqui após a separação dos continentes, e os caminhos percorridos pelo cientista inglês Charles Darwin em 1832, entre outras preciosidades, fazem parte dessa riqueza do Geoparque Costões e Lagunas. Mas também formam a exuberância do lugar as comunidades quilombolas, as colônias de pescadores, um rico patrimônio histórico e arqueológico, e até uma aldeia indígena. São traços culturais que os visitantes vão valorizar mais ainda após o possível reconhecimento pela Unesco, o que vai atrair pessoas para a culinária, o artesanato e atividades culturais diversas da região. 

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Lagoa de Araruama. Crédito: Projeto GpCL-RJ

“A região tem formações geológicas raras no mundo e tem muita importância também para os estudos para a formação dos reservatórios de petróleo do Pré-sal. Temos que dar maior visibilidade a esse patrimônio”, afirma o geógrafo da UERJ Marcus Cambra.

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Falésias da Praia da Lagoa Doce, em São Francisco do Itabapoana. Crédito: Projeto GpCL-RJ

A turismóloga Danielle Rabelo está atuando no projeto através da Câmara de Turismo e Comunicação do Conselho Gestor do Geoparque aposta no estímulo a um turismo mais consciente e de grande envolvimento com as comunidades locais para o desenvolvimento econômico da região. Segundo ela, além de mais investimentos em sinalização e divulgação das atrações, os diferentes municípios precisam adotar uma identidade visual única para todo o parque a fim de valorizar ainda mais a região. 

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Beachrocks de Jaconé, em Maricá

“Toda a área do geoparque tem todas as condições para a implantação de um turismo mais regenerativo. Além de apostar da preservação, o projeto ajuda na inclusão de quem mora nesses locais. É possível promover a visitação sem agressão e destruição, ao mesmo tempo em que as pessoas poderão vivenciar a cultura local, ocorrendo uma troca e colaboração”, explica Danielle Rabello.

Após a entrega da documentação, prevista para o fim de novembro, a Unesco pode colocar o geoparque na categoria de aspirante. Uma equipe deve visitar a região para conhecer melhor os sítios, podendo haver novas exigências. A análise criteriosa da Unesco só valoriza a titulação, que tende a preservar a região contra a especulação imobiliária, o turismo predatório e todo tipo de agressão ambiental.

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