Eventos de cúpula podem alavancar posição do Brasil no cenário internacional

Lula e líderes do G20. Crédito: Ricardo Stuckert (PR)
Eventos de cúpula podem alavancar posição do Brasil no cenário internacional
Soberania Energética

Encontros como o do G20 e a COP30, que serão realizados em cidades brasileiras, chamarão a atenção do mundo para o Brasil, que poderá costurar acordos internacionais sobre temas cruciais

Nos últimos anos, posições tomadas pelo país com relação aos direitos humanos, meio ambiente e temas econômicos o colocaram num status classificado por muitos como o de um “pária internacional”. Mas, além de viver uma guinada em sua postura com o novo governo, novas oportunidades podem levar o Brasil a abandonar rapidamente essa condição subalterna e adotar maior protagonismo no mundo. Nos próximos dois anos, importantes encontros de cúpula serão realizados em cidades brasileiras, o que proporcionará, além da visibilidade, a possibilidade de costuras para aprovação de propostas brasileiras em diversos temas. Tanto na reunião do G20, em 2024, quanto na COP30 e na reunião dos BRICS, em 2025, as atenções estarão voltadas o papel do Brasil e sua capacidade de liderança.

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Líderes do BRICS reunidos na África do Sul. Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Apesar do isolamento adotado pelo país nos anos recentes, a linha atual é de buscar a proeminência. O Brasil exerceu também a presidência do Conselho de Segurança da ONU em outubro e passou a articular um acordo de paz para o conflito Israel versus Hamas. Apesar de sua proposta ter sido vetada pelos Estados Unidos, a adesão ao texto surpreendeu os analistas e deu  nova projeção ao país. Até que ponto ter uma estratégia ousada no campo internacional pode ser exitosa ou virar um fiasco dependerá dessa capacidade de articulação e liderança.

Para Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV (FGV NPII), a coincidência de encontros tão importantes em curto espaço de tempo é uma oportunidade para o país alcançar maior prestígio internacional. A COP30, marcada para o fim de 2025 em Belém do Pará, pode ser um palco importante nessa virada, tendo em vista o fato de o governo anterior ter cancelado a organização da edição de número 25 que seria realizada no Brasil em 2019, o que acarretou a transferência para Madri, na Espanha.

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Belém do Pará vai sediar a COP30 em 2025. Crédito: Creative Commons

“Com essas conferências, o Brasil tem uma oportunidade de aproveitar essas plataformas para surgir como um país negociador. Tem a chance de se tornar um proeminente player internacional”, afirma Paz.

É um caminho que pode ser trilhado através de soluções mais pragmáticas. Com menos idealismo, propostas que levem a avanços podem ser construídas para a obtenção de maior consenso. Um exemplo bem sucedido foi o da diplomacia francesa, que propôs a criação da NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada), que permitiu que cada país estipulasse sua própria meta para a redução de emissões de CO2. Diante do agravamento da crise climática global, até alternativas mais ousadas podem ser lançadas, desde que tenham chance de receber ampla adesão. E o fato de uma conferência como a COP30 ser realizada em plena Amazônia cria as condições simbólicas perfeitas para uma sensibilização por parte dos governos.

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Mas antes do evento no Pará, o teste de fogo do novo poder de liderança brasileiro será a reunião dos líderes das 20 maiores economias do planeta no Rio de Janeiro, no fim do ano que vem, que também contará com a participação de outros dez países convidados. O lema do encontro será “Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável“. A ideia é aliar o combate à pobreza com uma perspectiva de preservação do meio ambiente, tornando a defesa da sustentabilidade um esteio também para a justiça social. 

A proposta do presidente Lula é ousada, o que pode não alcançar a adesão dos países ricos, que teriam que dar maior contribuição para as causas. No entanto, além dos eventos climáticos extremos que já causam prejuízos às economias desenvolvidas, o aumento dos conflitos e migrações no mundo serve como alerta para a necessidade de uma menor desigualdade no planeta.

A proposta do governo brasileiro é de lançar uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, a ser firmada na capital fluminense. Os focos serão a segurança alimentar, a transição energética e a reforma das instituições de governança global, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Conselho de Segurança das Nações Unidas, para ampliar o espaço e o acesso a recursos por parte de países em desenvolvimento.

Em seu discurso na última cúpula do G20 na Índia, Lula já instou os países a se mobilizarem por reformas. “Vivemos num mundo em que a riqueza está mais concentrada. Em que milhões de seres humanos ainda passam fome. Em que o desenvolvimento sustentável está ameaçado. Em que as instituições de governança ainda refletem a realidade de meados do século passado. Só vamos conseguir enfrentar todos esses problemas se tratarmos da questão da desigualdade”, afirmou o presidente.

Até o encontro no Rio, dezenas de eventos preparatórios devem ser realizados em todo o território nacional com o objetivo de proporcionar um amplo debate sobre os temas. Além da premência de soluções contra o aquecimento global e o avanço dos conflitos no mundo, a crise econômica pela qual passam muitos países também tende a ser favorável ao surgimento de propostas inovadoras que podem ser alavancadas pelo Brasil. Por isso, a ideia de reforma das instituições financeiras internacionais vem ganhando força e o encontro do G20 pode ser um momento propício o início de mudanças.

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Amazônia será o centro das atenções na COP30. Crédito:  Creative Commons/ Marcello Nicolato

O próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vem ressaltando a necessidade de uma nova agenda global e defendendo a capacidade brasileira de mediar os debates.

“A crescente fragmentação geoeconômica, um multilateralismo enfraquecido, uma crise de dívida iminente em vários países do Sul Global, a pobreza e a fome persistentes, o aumento da riqueza e da desigualdade de rendimentos, e a crise climática representam riscos negativos significativos para a economia global”, diz trecho de documento do Ministério da Fazenda.

Segundo o professor de relações internacionais da ESPM Leonardo Trevisan, o momento é realmente propício a uma redivisão de poder no mundo, em que países em desenvolvimento teriam maior influência e o G20 no Brasil pode reforçar essa tendência. “A posição de Lula, que é endossada por Índia, Indonésia e potências médias, diz que quer lugar à mesa, já que o mundo não pode mais ser dirigido por duas potências”, avalia o professor. “As alterações de clima, governança global e perda de empregos devido às novas tecnologias são problemas que precisam de soluções globais”, acrescentou Trevisan.

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