Livro resgata protagonismo brasileiro na construção do Cristo Redentor

Livro resgata protagonismo brasileiro na construção do Cristo Redentor
IA - Inteligência Artificial

Pesquisa, que utilizou acervo da Biblioteca do Clube de Engenharia, comprovou a responsabilidade preponderante do arquiteto Heitor da Silva Costa na obra monumental

O mito de que a estátua do Cristo Redentor, no topo do Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro, foi praticamente construída na França e doada ao Brasil, que apenas a teria montado, ainda perdura nas conversas e está presente até em muitos livros didáticos. A desinformação parte do velho preconceito que desmerece a capacidade brasileira de criação e realização. Mas uma obra recente, amparada em longa pesquisa, comprova que a participação de franceses na elaboração do projeto e no preparo de moldes e maquetes não tirou o protagonismo de seu principal responsável, o carioca Heitor da Silva Costa (1873-1947), engenheiro e arquiteto que foi membro do Clube de Engenharia, e que coordenou os trabalhos, contribuindo decisivamente para suas principais inovações. 

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Ficha de Heitor da Silva Costa no Clube

O livro “O Cristo do Rio: A reconstrução de uma história”, da pesquisadora Izabel Noronha, reúne depoimentos do coordenador e idealizador do projeto retirados de entrevistas, de livros e de seus manuscritos, além de fotografias, rascunhos e plantas que sobreviveram ao tempo. Foi um árduo trabalho de 20 anos da organizadora, que é bisneta de Heitor, e que contou com a contribuição da Biblioteca da entidade, onde há documentos e reportagens sobre a construção.

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Izabel Noronha na Biblioteca do Clube
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Capa da obra

A ideia de erguer um monumento no alto do Corcovado surgiu de um sonho do padre lazarista francês Pierre-Marie Boss, da Igreja do Colégio Imaculada Conceição, ocorrido supostamente em 1859. A quimera chegou a ser registrada no livro “Imitação de Cristo”, de 1903, e previa uma estátua de mais de 700 metros. Mas foi em 1921 que a Igreja Católica resolveu se mobilizar para a realização do projeto. O Brasil estava prestes a completar 100 anos de sua Independência e o objetivo era realizar o projeto a tempo das comemorações. Até o topo do Pão de Açúcar foi cogitado para receber a imagem de Cristo na época.

A Arquidiocese do Rio realizou um concurso nacional em que Heitor se sagrou vencedor com um desenho que pouco lembra a imagem final. Nela, Cristo aparecia apoiado numa cruz e segurando um globo terrestre numa das mãos. Em meio aos estudos para sua localização e ao aprimoramento da concepção, o criador da obra acabou optando por um minimalismo maior e a cruz foi simbolicamente representada na posição de braços abertos do Redentor. O planeta passou também a estar presente de forma abstrata, pois é o todo que ele abençoa com seu gesto e com o rosto inclinado para baixo. 

O desprendimento do criador de abrir mão de sua ideia inicial e engrandecer sua obra merece ser louvado não apenas pela disposição de retrabalhar um desenho já vencedor do concurso, mas também pelos desafios técnicos que a mudança gerou. Por ter os braços abertos e a cabeça inclinada, os cálculos estruturais e o risco da construção no alto do penhasco aumentaram em muito. Valeu a pena o esforço, pois o monumento virou um símbolo da cidade e do Brasil não só por sua beleza e inserção perfeita na paisagem natural, mas também por sintetizar através de seu desenho que encarna total amistosidade e benevolência o espírito carioca e brasileiro. Assim, ele acabou representando uma afetividade comum na formação cultural local e nacional, independentemente de credo, sendo motivo de devoção especial para os cristãos.

A organizadora conta que Heitor observou o topo do Corcovado de diversos pontos da cidade, pois queria uma proporção perfeita e também garantir a visibilidade a olho nu para o máximo possível de cariocas. Mas foi decisiva sua moradia na Praia de Botafogo de onde tinha uma vista mais privilegiada do local. A instalação de um equipamento de comunicação no lugar também contribuiu o projeto. “(…) verificou-se um fato interessantíssimo, providencial, poder-se-ia dizer, pela influência que teve na concepção desse segundo projeto, qual seja, a instalação feita no Corcovado, pela Companhia Telefônica, de altas torres munidas de vários braços e antenas, para estabelecer a comunicação radiotelefônica entre o Rio de Janeiro e os Estados Unidos da América do Norte. Uma dessas torres ficava justo em frente à casa de residência de meu saudoso pai, à Praia de Botafogo, e dali se via perfeitamente a cruz formada pela torre de quarenta metros de altura e o maior braço transversal de 16 metros de extensão”, diz Heitor em um de seus depoimentos transcritos no livro.

Apesar da ideia falsa de que a França teria doado o monumento ao Brasil, o custo pela realização do projeto foi praticamente todo arcado por doações de brasileiros, majoritariamente fiéis da Igreja Católica. O recolhimento foi realizado por crianças e adolescentes, e alguns deles chegaram a gravar depoimento à organizadora para documentários dirigidos por ela. Estão registrados nos filmes “De Braços Abertos” (Bretz Play e Looke), de 2008, e “Christo Redemptor” (Bretz Play e Looke), de 2005.

Trailer do documentário “De Braços Abertos”

Estima-se que a construção teria custado em valores de hoje cerca de R$ 23 milhões. Pelas dificuldades técnicas de transportar o material e os operários até o topo, além dos obstáculos gerados pela instalação de andaimes num espaço exíguo rente aos precipícios, é nítida a austeridade financeira do empreendimento. Parte desse sucesso foi garantido pelo engenheiro fiscal Pedro Fernandes Vianna da Silva, que também pertencia ao corpo do Clube.

A saga da construção durou cerca de dez anos e incluiu visitas à Europa para estudos e reuniões. A pesquisadora ressalta que foi decisiva a inspiração que Heitor teve ao ver uma fonte instalada em galeria na Champs Elysees, formada por mosaicos prateados. No seu projeto, foi introduzido esse mesmo tipo de revestimento, mas com pedras sabão, uma inovação que deu enorme resistência à estátua. Uma imagem da Santa Genevieve, também da capital francesa, foi outra inspiração para os traçados do manto. 

O escultor Paul Landowski e o engenheiro calculista Albert Caquot foram colaboradores fundamentais para a obra, mas suas sugestões passaram sempre pelo crivo de Heitor. Ele fazia questão de linhas retas para que o monumento tivesse sustentação firme e plena, e precisou intervir em maquete feita por Landowski, conforme fica evidente no livro. Também na estrutura interna, feita em concreto armado, o trabalho do calculista foi aprimorado. É reconhecido, no entanto, que o artista de origem polonesa é o responsável pelos moldes das mãos e da cabeça.

Para que a estátua tivesse seus 30 metros de altura sobre um pedestal de oito metros, optou-se pela construção de verdadeiro edifício para a sustentação, formado por quatro pilares e diversos platôs. Mas o maior desafio era dar firmeza aos braços até a ponta dos dedos, bem como sustentar o peso da cabeça inclinada. “Diversas vigas e ‘plateaux’, de concreto armado, ligam os pilares e suportam o revestimento, ao passo que outras vigas inclinadas atendem aos esforços de torção. A armação dos braços é constituída de vigas em treliça, de concreto armado, com dois estrados sobrepostos e em cujas extremidades acham-se engastadas vigas de aço, igualmente em treliça, destinadas a suportar a carga das mãos. É a única parte da estrutura que é de aço, mas, mesmo assim, fica mergulhada em concreto para a devida conservação”, explica Heitor em seus manuscritos.

Manter os membros superiores suspensos, sem acidentes, por mais de 90 anos, comprova a qualidade da construção. Recentemente, uma estátua do Cristo na cidade catarinense de Barra Velha teve justamente parte de seu membro decaído. Também é admirável o fato de não ter ocorrido fatalidade na obra, apesar dos enormes riscos. O poder de suportar as ventanias que ocorrem no lugar e até raios que caem sobre a estátua é também sinal da qualidade do projeto.

Muitos diziam que não ia dar certo. Mas a construção do monumento foi um feito não só por ter superado diversos desafios técnicos como orçamentários. Eu quis resgatar a capacidade do brasileiro de realização”, afirma Izabel.

Todo o processo de estudo para a construção mereceu grande atenção da pesquisadora. O trabalho de desenho, cálculo estrutural e produção de maquetes e plantas durou cerca de cinco anos, a metade de todo o projeto, inaugurado em outubro de 1931. O detalhamento foi tão meticuloso que as imagens que serviram de base para o monumento chegaram a somar 16 quilômetros de plantas, o suficiente para dar duas voltas na Lagoa Rodrigo de Freitas.

O engenheiro Godart Sepeda testemunhou toda a engenhosidade do monumento quando justamente toda essa façanha técnica estava mais ameaçada. Na virada do século, ele atuou no restauro da estrutura do Cristo Redentor como diretor técnico e calculista da empresa Jatocret. Segundo ele, por pouco o mundo não viu partes do concreto do manto desabar, pois os pinos que unem as paredes externas do monumento aos pavimentos da estrutura estavam em colapso. Foi preciso realizar a recuperação e a solução encontrada foi reforçar esses “andares” com uma malha de titânio em cada um deles. Novo concreto projetado na horizontal completou esse trabalho de reestruturação, que deixou a estátua segura.

As paredes são pinadas nas lajes da estrutura através de grampos de ferro em cima e embaixo desses pavimentos. Mas na época os pinos estavam em colapso e o Cristo corria o risco de ficar nu”, conta Godart Sepeda.

Além de sua resistência contra os ventos e a oxidação, o Cristo Redentor também tem sobrevivido graças aos para-raios em sua cabeça. No último dia 10 de fevereiro, um deles caiu bem sobre a estátua, que não sofreu avaria. 

Não é à toa que o Cristo Redentor foi eleito uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno e é também Patrimônio da Humanidade pela Unesco. O monumento é conhecido no mundo inteiro e praticamente um ponto turístico obrigatório para quem visita o Rio. É um caso único do uso da precisão do cálculo a serviço do encantamento.

Dicas

A obra pode ser adquirida em lojas físicas das redes Travessa, Blooks e Livraria Janela, entre outras. Também está disponível nas lojas online Amazon e Magalu.

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