Lixo eletrônico causa desperdício de recursos e danos ao meio ambiente

Acúmulo e descarte incorreto do lixo eletrônico é prejudicial ao meio ambiente. Crédito: dokumol / Pixabay
Lixo eletrônico causa desperdício de recursos e danos ao meio ambiente
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Cadeia da logística reversa, que poderia ser a solução, está emperrada em gargalos que vão do consumidor às recicladoras

O Brasil é um dos maiores produtores de lixo eletrônico do mundo e recicla muito pouco desse material. Segundo o relatório The Global e-Waste Monitor, produzido pela ONU, o país figura em quinto lugar no ranking da geração desses resíduos, cujo reaproveitamento não chega a 3%. Apesar do valor que os produtos descartados têm, diversos gargalos se formam ao longo da cadeia de logística reversa que impedem um retorno maior desses dejetos para a indústria, levando grande parte deles a ser despejada no meio ambiente ou nos aterros sanitários. 

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A abertura dos aparelhos por catadores representa risco e atrapalha a cadeia de logística reversa. Crédito: Pixabay

Para atender as metas da legislação federal que regula os resíduos sólidos, a indústria de eletroeletrônicos formou associações que procuram estimular a coleta e a reciclagem desse lixo. A maior delas está reunida na Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (ABREE), que, segundo seu último relatório relativo ao ano de 2021, não cumpriu o estipulado para a coleta. A entidade informou a recuperação de 1.245 toneladas, enquanto que a meta estabelecida pelo Decreto 10.240/2020 era de pelo menos  10.924 toneladas, ou o equivalente a 1% do peso dos produtos levados ao mercado por elas em 2018.

Hellen Brito, gerente de Relações Institucionais da ABREE, reconhece que o resultado precisa aumentar, mas argumenta que a entidade também representa fabricantes da linha branca, cujos produtos têm um peso muito maior do que os eletroeletrônicos da chamada linha verde, como celulares e computadores. Ela também ressalta o fato de a associação ter conseguido superar a meta de instalação de ecopontos para a coleta de material. Já em 2021 eram mais de 3 mil locais de recolhimento e esse número está chegando a 4 mil atualmente. Mas ela reconhece que muito tem que ser feito para cumprir as exigências para os próximos anos.

O decreto traz diversas metas que foram cumpridas, mas em termos da quantidade por peso ficou abaixo, entre os motivos, porque o total produzido pelas indústrias é alto devido à linha branca. Mas a grande informalidade que existe no mercado de recolhimento é um forte obstáculo. Como só trabalhamos com recicladoras e cooperativas homologadas, a rede informal fica de fora da conta”, afirma Hellen Brito.

A entidade tem promovido campanhas para divulgar junto aos consumidores a necessidade descarte correto do lixo eletrônico. Também tem auxiliado na certificação de recicladoras e de associações de catadores. Nessa ponta, há um forte obstáculo, devido à falta de capital desses grupos para adquirir os equipamentos necessários para o armazenamento correto e também para se evitar que se abram os produtos, o que não é permitido para segurança dos profissionais. A ABREE também aponta para a falta de empresas especializadas e certificadas nas regiões Norte e Nordeste, dificultando o avanço da logística reversa nesses locais.

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Recicladoras certificadas ainda são poucas no país. Crédito: Green Eletron

O setor formou ainda a associação Green Eletron, que apresentou números mais positivos com relação ao percentual recuperado. Recentemente, a entidade, que reúne 90 indústrias,  divulgou o balanço do ano de 2022 em que informa ter sido responsável pela reciclagem de 4,6 mil toneladas de eletroeletrônicos no Brasil, sendo que a meta era de cerca de 2 mil toneladas. O número de ecopontos também foi mais expressivo e chegou a 9,3 mil Pontos de Entrega Voluntária (PEVs).   

Normalmente, esses pontos estão instalados em lojas que apenas armazena os produtos descartados. Além de ter criado 1.152 novos PEVs só em 2022, a Green Eletron também intensificou o serviço de coleta em casa. 

A entidade aponta a falta de informação dos consumidores com um forte obstáculo ao avanço da reciclagem, tanto que em pesquisa feita em 2021 em 13 estados e no Distrito Federal, motrou que um terço das pessoas ouvidas atribuem o termo lixo eletrônico ao spam recebido por e-mail, por exemplo. 

A reciclagem de celulares, fones, impressoras, cabos, pilhas, carregadores, etc, permite o resgate do potencial dos materiais extraídos nesse processo, e a reutilização do plástico, vidro, cobre, prata, ouro, e muitos outros, além de evitar que os itens acabem em lixões ou até mesmo na natureza”, explica Ademir Brescansin, gerente executivo da Green Eletron. “Desde 2016 temos aplicado nossos esforços em duas frentes: a conscientização da indústria sobre a importância da logística reversa de eletroeletrônicos, uma vez que é uma obrigatoriedade legal, e a aproximação da população, para promover a adoção de hábitos sustentáveis no cotidiano. Percebemos que tem crescido o interesse das empresas pelo desenvolvimento sustentável e pela adequação às novas leis, ao passo que o consumidor já exige muito mais esse engajamento das marcas que consome. Por isso, temos boas expectativas”, acrescenta ele.

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Ponto de coleta da Reciclotron

Para o professor da UFF e fundador da startup Reciclotron, Cláudio Fernandes, os agentes da cadeia de logística reversa precisam de ganho de escala para alcançar a lucratividade e conseguirem não só atender a todas as exigências legais como contribuir de forma efetiva para que o país recicle a maior parte do lixo eletrônico. Sua iniciativa auxilia no processo de certificação de recicladoras e armazenadoras, bem como estimula empresas a realizarem coletas entre seus funcionários. Seu método baseado na gamificação prevê o recebimento de pontos pelos voluntários que entregam produtos usados. Esses bônus somados podem ser trocados por compras em empresas parceiras.

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O descarte correto de fios e cabos ainda é um desafio.

As pessoas tendem a acumular muito lixo eletrônico em casa e quando descartam acabam destinando muitas vezes para o mercado negro. O mais importante é difundir a consciência da sustentabilidade e fazer com que os consumidores façam o descarte em locais adequados para que tenha a destinação final correta também”, explica Fernandes.

A Reciclotron vem encontrando os mais variados destinos para o lixo eletrônico e parte do material vira até esculturas. Computadores ainda em bom estado vão para projetos de inclusão digital, em escolas públicas e orfanatos.

A consultora Cristina Helena Fabris Pinheiro, que já foi Gerente de Planejamento e Coleta Seletiva da Prefeitura de São Paulo, acredita que a conscientização é de fato muito importante para o aumento da reciclagem de material eletroeletrônico, tendo em vista os avanços que já ocorrem no Brasil com relação à reciclagem de plástico e latinhas. Esse material também era muito descartado no lixo comum e as sucessivas campanhas fizeram com que as famílias passassem a separar esses detritos. No caso das embalagens metálicas de bebidas o país, inclusive, é campeão de recolhimento. Mas ela também aponta para a necessidade de um endurecimento maior por parte do governo junto à indústria e de apoio à cadeia de logística reversa com financiamento e recursos para capacitação e investimentos.

Ela defende uma remuneração mais justa aos catadores e coletores, que costumam receber por quilo de material, não importando o que tem dentro. Com isso, há um desestímulo à recuperação de celulares e notebooks. Enquanto, paga-se R$ 2,70 o quilo desses equipamentos, no mercado paralelo eles saem por R$ 50 o quilo. Sem contar, a tendência de catadores abrirem os produtos para tirar peças mais valiosas. TVs de tubo ou de plasma, por exemplo, têm componentes cancerígenos. Além disso, há o exemplo dos equipamentos médicos que eventualmente podem ir parar em ferros-velhos. Nunca é demais lembrar que o maior acidente nuclear brasileiro se deu pela abertura de um aparelho de radioterapia em Goiânia, em 1987, contendo césio -37, o que causou a morte de quatro pessoas e danos a outras 1.600.

As indústrias deveriam investir mais em propaganda de conscientização e obrigar as lojas a terem pontos de coleta, caso sejam ponto de venda de eletroeletrônicos”, defende Fabris Pinheiro.

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Acessórios estão entre os principais itens de lixo eletrônico. Crédito: Green Eletron

Numa época de escassez e encarecimento de matérias-primas para a indústria, não faltam motivos para uma mobilização maior para o aprimoramento da economia circular na indústria eletroeletrônica. Aumentar a mobilização pelo descarte correto e fomentar a cadeia reversa pode dar lucro e o meio ambiente agradece.

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