Projeto promete acabar com a dependência de importação de radioisótopos pelo país

Projeto promete acabar com a dependência de importação de radioisótopos pelo país
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Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), em construção em Iperó (SP), tem previsão de conclusão em cinco anos, e também deve contribuir com as pesquisas na área nuclear

A dependência da importação de radioisótopos é uma das principais preocupações de quem atua na área da medicina nuclear. Esses elementos são fundamentais para determinados diagnósticos e tratamentos e o fornecimento desse material pode ser afetado pela escassez internacional, prejudicando a vida dos pacientes. Por isso, há cerca de 15 anos o país busca construir um centro próprio para a produção desses elementos. Depois de adiamentos, o projeto do chamado Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) deslanchou este ano e o governo federal tem o desafio de concluí-lo em cinco anos. Além de melhorar o acesso a exames e à cura de doenças como o câncer, a iniciativa deve ser benéfica também para o desenvolvimento de pesquisas científicas, para a indústria, a agricultura e o meio ambiente.

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Estruturas principais do bloco do Reator

O RMB está sendo construído no município de Iperó (SP) próximo ao Centro Industrial Nuclear de Aramar da Marinha, onde já é desenvolvido projeto de construção do reator do submarino nuclear brasileiro. A intenção de erguer no interior paulista esse novo reator foi anunciada oficialmente em 2009 e a pedra fundamental da obra chegou a ser lançada pelo ex-presidente Michel Temer em 2018. Apesar de já ter consumido mais de R$ 200 milhões, a iniciativa ainda está na fase de detalhamento do projeto executivo, o que é realizado em parceria com a Argentina. A alocação no Orçamento deste ano do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de verba para o projeto deu maior esperança de que desta vez é para valer e que o prazo de conclusão de cinco anos será cumprido. Há uma estimativa de que ainda em 2023 a obra receba até R$ 393,5 milhões.

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Prédio do Reator

Segundo o ex-presidente da Eletronuclear Leonam Guimarães, a questão orçamentária é um dos pontos nevrálgicos do projeto, tendo em vista principalmente o fato dele não poder ser implementado e operacionalizado por etapas. Estimado em US$ 500 milhões, o que a um câmbio de R$ 5,25 seria o equivalente a R$ 2,625 bilhões, o projeto ainda é financiado exclusivamente com recursos do Orçamento vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e ao FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia). O aporte de outras pastas com afinidade com a iniciativa, como a Saúde e a Defesa, seria fundamental para a garantia de uma conclusão dentro do prazo de cinco anos ou próximo a isso.

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Detalhe do Núcleo do Reator

Outro óbice para a construção do RMB, de acordo com ele, é o fato de diversas instituições estarem envolvidas, faltando ainda uma estrutura própria e independente para a coordenação e gestão do projeto. A partir de uma visão política mais desenvolvimentista, todos esses obstáculos podem ser superados e a devida prioridade pode ser dada ao prosseguimento ao projeto, em função dos evidentes benefícios econômicos, sociais, científicos e tecnológicos que tende a trazer.

Esse é um projeto de grande porte. Não chega a ter a mesma envergadura de Angra 3, mas vai mobilizar empresas nacionais para a construção de sua estrutura e para os equipamentos, o que pode gerar empregos e trazer efeito significativo para o desenvolvimento tecnológico”, explica Leonam Guimarães.

Um dos principais ganhos para o país com a concretização do projeto é o fim da dependência da importação de radioisótopos para a medicina nuclear. Elemento muito usado em diagnósticos,  o molibdênio-99, praticamente não é produzido no país, o que encarece o acesso a exames de imagem em que é necessária a avaliação de órgãos em seu processo de metabolismo. A escassez desse produto já até interrompeu no passado a realização de procedimentos médicos no Brasil.

Mas as finalidades do Reator são múltiplas, como o próprio nome diz. Os radioisótopos têm finalidade na indústria, na agricultura e são cada vez mais necessários em pesquisa e desenvolvimento, principalmente de novos materiais. A produção de feixes de nêutrons pelo reator pode ter importância para a ciência brasileira. Um dos projetos que podem ser beneficiados com a construção do RMB é o do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que faz parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), uma Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

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Maquete de arquitetura do Prédio dos Pesquisadores

O LNLS opera o chamado Sirius, considerada a maior e mais complexa infraestrutura científica presente no Brasil e uma das mais avançadas fontes de luz síncrotron do mundo. Trata-se de um laboratório de última geração, que tem a função de ajudar nas pesquisas sobre composição e estrutura da matéria em suas mais variadas formas. Através dessa unidade, o país pode avançar em muito na pesquisa em áreas como ciência dos materiais, nanotecnologia, biotecnologia, ciências ambientais, entre outras.

Feixes de nêutrons têm penetração maior na matéria e por isso são tão importantes para todo o setor industrial nacional. Sua produção é um desafio de competitividade para desenvolvimento de materiais”, destaca Guimarães.

Patricia da Silva Pagetti de Oliveira, da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD) da CNEN, reconhece que a questão orçamentária ainda é um importante desafio do projeto. “O aporte financeiro de outras pastas do Governo Federal pode trazer alguma garantia em relação aos recursos necessários para que sua construção seja iniciada e realizada o mais próximo possível de uma empreitada integral”, explica Patrícia. 

Por enquanto essa contribuição não ocorreu. Caso nos próximos anos o cronograma de aporte seja cumprido, seria possível implantar o projeto em cinco ou seis anos, seguindo um planejamento orçamentário adequado. Os maiores volumes estão previstos para os anos de 2025 e 2026, com dispêndio de R$ 656 milhões em cada exercício, para o projeto. 

“O reator visa a produção de radioisótopos para aplicação na saúde, indústria e meio ambiente, teste de irradiação de combustíveis nucleares avançados, irradiação e teste de materiais, realização de pesquisas em física nuclear e aplicação de feixes de nêutrons em apoio a pesquisas científicas e tecnológicas em várias áreas do conhecimento”, justifica Patrícia.

A falta e o encarecimento dos radioisótopos afetam drasticamente a população que precisa de tratamento. Diferentes tipos de câncer têm aumentado sua incidência no país, o que deve aumentar ainda mais a demanda por produtos voltados para a medicina nuclear. O baixo número de exames com esses materiais, que coloca o país inclusive atrás de outros da América Latina, também tem que ser combatido.

“A produção desses radioisótopos é muito concentrada no mundo em poucos reatores de pesquisa. Se problemas sérios ocorrerem em parte desses reatores, perde-se uma parcela muito significativa do suprimento mundial e ocorrem crises como ocorreram no passado. Atualmente essa situação se estabilizou, mas nada impede que volte a acontecer”, conclui Leonam Guimarães.

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