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Theodoro Sampaio, pioneiro negro da engenharia brasileira que enfrentou o racismo e a escravização

Theodoro Sampaio, pioneiro negro da engenharia brasileira que enfrentou o racismo e a escravização

Theodoro Sampaio, pioneiro negro da engenharia brasileira que enfrentou o racismo e a escravização
Soberania Energética

Por Márcio Girão*

Engenheiro civil, geógrafo e historiador, Theodoro Sampaio está no grupo dos pioneiros que construíram as bases do desenvolvimento brasileiro a partir do século XIX. Mas sua história singular merece ser difundida para inspirar milhões de jovens que ainda hoje enfrentam barreiras devido à cor negra de sua pele. 

Nascido em 7 de janeiro de 1855, na Bahia, filho de uma mulher escravizada, conseguiu estudar e, com o dinheiro que recebia de seus trabalhos, comprar as alforrias da mãe e de três irmãos mais velhos. Foi deputado, escritor, dirigente de institutos, mentor, percorreu o interior do Brasil e registrou em livros, que se tornaram referências, o que viu.

Entre suas obras estão clássicos da geografia e história, como ‘O rio São Francisco e a chapada Diamantina (1906)’; O tupi na geografia nacional (1901); Atlas dos Estados Unidos do Brasil (1908); Dicionário histórico, geográfico e etnográfico do Brasil (1922) e História da Fundação da Cidade do Salvador (póstumo). Mas no caminho teve que enfrentar o racismo de uma sociedade onde a escravização de pessoas ainda era vigente. 

Theodoro Sampaio nasceu no Engenho Canabrava, no município de Santo Amaro da Purificação. Segundo uma das versões, seria filho do padre Manoel Fernandes Sampaio, a quem sua mãe escravizada, Domingas, havia sido designada para trabalhar como lavadeira e cozinheira. Theodoro Fernandes Sampaio nasceu livre e recebeu o sobrenome daquele que seria seu pai, apesar da incerteza. O certo é que ele tinha nove anos de idade quando o padre o trouxe para estudar no Rio de Janeiro, então capital do Império. Já aos 17 anos entrou na Escola Central, depois batizada de Escola Politécnica, para estudar engenharia.

As notas de Theodoro eram acima da média, especialmente em desenho e matemática. A qualidade de desenhista de mapas e paisagens se destacava.  Em 1875 foi contratado como desenhista no Museu Nacional. E, enquanto estudava, dava aulas de disciplinas como Matemática, História e Filosofia. Em 1877, aos 22 anos se formou em engenharia. No mesmo ano foi à Bahia rever a mãe e os irmãos ainda escravizados. No ano seguinte conseguiu comprar a alforria do primeiro irmão, Martinho.

Sua capacitação não o blindava do racismo. Em 1879 foi convidado a participar da Comissão Hidráulica do Império, criada para estudar os portos brasileiros e melhorar a navegação pelos rios. No dia acordado se apresentou ao governo, mas seu nome não estava na lista, apesar do convite feito pelo senador Viriato de Medeiros. Segundo narrou mais tarde, o motivo era ser o único negro do grupo: “Fui assim eliminado e experimentei, então, o primeiro espinho do preconceito entre nós.”

Mas, felizmente para o Brasil, o senador insistiu e conseguiu a integração de Theodoro, que passou quatro meses navegando pelo São Francisco em grupo. Depois, por ordem do chefe William Roberts, ele navegou sozinho no sentido inverso, até chegar à Chapada Diamantina. O resultado foi que o jovem engenheiro negro fez relatórios minuciosos, desenhos e mapas que o levaram a ser reconhecido como o melhor engenheiro brasileiro do grupo. Mas o racismo prosseguiu e, quando terminou a atividade da Comissão, todos os demais, menos ele, conseguiram empregos. A alternativa foi dar aulas para ter alguma renda.

A prática da engenharia só seria retomada em 1881, quando foi contratado como engenheiro para calcular e desenhar pontes metálicas do prolongamento da linha férrea de Salvador ao São Francisco. No ano seguinte, 1882, ele conseguiu comprar a alforria do segundo irmão, Ezequiel. Nesse mesmo ano se casou e da união teve oito filhos.

Ainda na Bahia mostrou, mais uma vez, seus conhecimentos sobre o São Francisco e participou da Comissão de Melhoramentos do rio, quando conseguiu liberar a Cachoeira de Sobradinho e permitir a navegação de barcos a vapor no trecho.

Além das atividades de engenharia, Theodoro se dedicava à geografia e a estudos sobre o solo e clima. Chegou a fazer um manuscrito sobre os temas analisando o vale do São Francisco.

Assim como estudava e trabalhava com afinco, Theodoro tinha a meta de alforriar os irmãos. E em 1884 conseguiu libertar o último deles, Matias. Alcançado o objetivo, aceitou um convite e se mudou para São Paulo em 1886, onde participou da Comissão Geográfica e Geológica, que fez a primeira medição de base geodésica do Brasil. Ajudou a mapear o interior paulista e projetou obras para possibilitar a navegação no Paranapanema.

Em 1890, dez anos depois da fundação do nosso Clube de Engenharia, Prudente de Morais, governador de São Paulo, o convidou para projetar o saneamento da capital paulista. No estado ele ainda se desdobrou na criação de hospitais, instituto de higiene, ampliação da linha de bonde e reorganização dos serviços de águas e esgoto. Participou também da criação da Escola Politécnica de São Paulo e foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo

Em sua trajetória, conheceu o imperador Pedro II, que, durante um almoço, o colocou na cadeira à sua direita e usou o tempo para conversas sobre suas viagens e sua vivência com os indígenas brasileiros. Outro que aproveitou os conhecimentos de Theodoro sobre o interior brasileiro foi Euclides da Cunha, a quem deu informações históricas e um mapa da região de Canudos.

Peregrino, Theodoro Sampaio voltou à Bahia em 1904 e abriu seu escritório de engenharia. Entre outros, foi autor dos projetos da Faculdade de Medicina, do Pavilhão para tuberculosos do Hospital Santa Isabel e da fachada da Igreja da Vitória.

Em 1922, foi eleito presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. Em 1927 foi eleito deputado federal por seu estado. Já idoso e consagrado, se mudou para a Ilha de Paquetá, na cidade do Rio de Janeiro, onde morreu aos 82 anos de idade, em 1937.

Theodoro Sampaio ainda se casou mais duas vezes e teve mais três filhos. Hoje é homenageado como nome de rua e com o batismo de duas cidades, em São Paulo e na Bahia.

Theodoro Sampaio, pioneiro negro da engenharia brasileira que enfrentou o racismo e a escravização theodoro

Em nome dos engenheiros agradeço ao autor Orlando Nilha e à editora Mostarda (editoramostarda.com.br) por terem publicado a história desse brasileiro que honra a engenharia brasileira. A extensa pesquisa do livro que compõe a coleção Black Power foi fonte privilegiada desse artigo que publico no mês da consciência negra com a esperança de que o legado de Theodoro Sampaio se propague. Que a forma altiva com que enfrentou iniquidades como o racismo que afetou sua carreira e o sofrimento da escravização que vivenciou, sejam inspiração e ensinamento para todos. Que o antirracismo seja uma atitude efetiva de cada ser humano.

*Márcio Girão é presidente do Clube de Engenharia

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Sobre o Autor

Marcio Girão

Marcio Girão

Bio: Possui graduação e pós-graduação em Engenharia Civil pela USP-São Carlos. Atualmente é empresário, Vice-Presidente da Confederação de Tecnologia da Informação e Comunicação - CONTIC e Presidente do Clube de Engenharia.

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