Volta Redonda sofre com a poluição gerada pela CSN

Vista panorâmica da Companhia Siderúrgica Nacional, no Centro da cidade de Volta Redonda. Crédito: HenriqueBarraMansa - Creative Commons
Volta Redonda sofre com a poluição gerada pela CSN
A RETOMADA DA ENGENHARIA NACIONAL

Usina emite nuvem de pó preto que afeta a saúde da população e mantém montanha de dejetos próxima ao Rio Paraíba do Sul

Nos últimos meses, moradores de Volta Redonda, no Sul Fluminense, vêm sendo sufocados por uma nuvem de poeira preta que cobre a atmosfera da cidade. O pó, que é despejado no ar pela siderúrgica CSN, cobre o quintal das casas, suja móveis e roupas e prejudica a saúde da população. Além desse grave dano ambiental, a indústria é responsável pelo acúmulo de escória às margens do rio Paraíba do Sul. Enquanto muitas empresas do setor siderúrgico no mundo vêm fazendo investimentos para mitigar efeitos ambientais, a companhia privatizada em 1993 dá mal exemplo nesse quesito.

A qualidade do ar em Volta Redonda deixa a desejar desde a industrialização, mas este ano o resultado da poluição se agravou. Foram muitas postagens nas redes sociais de nuvens de fumaça saindo da usina e do acúmulo de fuligem nas ruas e casas. O problema chegou a um tal ponto, que o debate chegou à Câmara Municipal. Moradores, representantes do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), do Ministério do Meio Ambiente e de entidades ambientais e sociais estiveram presentes, bem como associações de moradores. Mas a siderúrgica sequer enviou um representante para se posicionar.

O clima na casa legislativa era de revolta, devido aos transtornos que a poluição vêm causando. Manifestantes foram vestidos com roupas pretas e carregavam cartazes com frases escritas, como: “Pelo direito de respirar“, “Menos poluição, mais saúde” e “Nós não merecemos esse ar poluído“.

“O volume de pó de ferro que estão jogando nos nossos pulmões está absurdo. Todos os dias a gente lava a casa, limpa e horas depois conseguimos juntar com a pá a quantidade de pó absurda que vai para os nossos pulmões”, contou Jordana Cavalcanti, moradora do bairro Vila Santa Cecília.

Audiências como essas deveriam ser bons sinais para a solução dos problemas, mas há pouca esperança de que a companhia faça o seu dever e invista em equipamentos que reduzam a emissão de poluentes. Em 2018, foi assinado até um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a CSN, o Instituto Estadual do Ambiente (INEA) e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, mas foi negligenciado pela siderúrgica, que acabou perdendo sua licença de operação. Continua funcionando normalmente e despejando resíduos no ar à vontade.

Em virtude do aumento da poluição e dos danos causados à população, o INEA emitiu uma multa no valor de R$ 1 milhão contra a siderúrgica. Em nota, o órgão ambiental do estado informou que atua no acompanhamento do cenário de “agravamento da poluição na cidade de Volta Redonda, em função do aumento de partículas sedimentáveis (pó preto), característico do processo siderúrgico, cenário este que se intensifica nesta época do ano”.

O problema exige empenho e rigor por parte das autoridades e a omissão do poder público também contribuiu. A usina fundada por Getúlio Vargas em 1941 foi criada numa época em que leis ambientais e a preocupação com todo tipo de externalidade nas indústrias era pequena, mas com o tempo o mundo foi evoluindo no sentido da aplicação de filtros e modernos métodos de produção para mitigar os efeitos nocivos à saúde e ao meio ambiente. No entanto, esse progresso não chegou à CSN, que só piorou depois de privatizada.

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Poluição gerada pela CSN. Crédito: Alexandre Amorim/Creative Commons

O pó preto é composto por micropartículas de ferro. Desde 2017, o governo do Estado do Rio decidiu que materiais como esse, que ficam suspensos no ar, não mereciam figurar na lista de poluentes a serem monitorados. Deu no que deu. 

O pesquisador e professor de Geociências da USP André Negrão lamenta que uma privatização feita às pressas tenha causado tanto mal à cidade, que perdeu equipamentos que eram de uso público e também viu grande parte de seu território ser entregue compradores da usina. 

“O que a CSN vem praticando é um retrocesso. Ao contrário das empresas modernas, que buscam o controle até das emissões de CO2, está emitindo cada vez mais poluição. É reflexo em parte de uma privatização mal realizada, que inclusive entregou grande parte da cidade bem como bens públicos que foram abandonados pela empresa”, destacou o professor, que nasceu na cidade. 

Os critérios adotados pelo estado estão na contramão do mundo. Tanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já classifica a poluição atmosférica no mesmo patamar de ameaças ambientais à saúde humana.  Segundo a Fiocruz, diversos estudos realizados em Volta Redonda relacionam a poluição atmosférica à incidência de doenças respiratórias e até o risco de morte.  

“Em 1998, o Sindicato dos Engenheiros fez um estudo em que constatou-se que a poluição tinha piorado depois da privatização. Como os órgãos de fiscalização não cumprem seu papel, a situação só piorou”, comentou José Moraes da Silva (Zezinho), ex-funcionário da CSN e um dos fundadores do MEP.

Mais recentemente o Instituto Arayara fez uma avaliação mais acurada das emissões, possibilitando uma mensuração não apenas da fuligem visível, mas também de gases nocivos não tão perceptíveis a olho nu. Através de uma câmera que capta comprimentos de onda invisíveis, constatou a presença de diferentes tipos de hidrocarbonetos e outros poluentes. Enquanto as partículas sólidas se acumulam no aparelho respiratório, podendo causar doenças com o tempo, os gases teriam potencial cancerígeno, segundo a ONG.

“Na literatura científica existem artigos que apresentam as relações entre os poluentes atmosféricos mensurados nas estações de monitoramento da qualidade do ar com algumas diversas doenças, sejam respiratórias, cardiovasculares, com os custos à saúde pública. Fator que impede novas pesquisas, está relacionado ao acesso aos dados da qualidade do ar em Volta Redonda, que não estão disponíveis para a consulta pública”, salientou o engenheiro ambiental Urias Bueno Neto.

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Moradores reclamam da qualidade do ar de Volta Redonda. Crédito: Alexandre Amorim/Creative Commons

Além do ar poluído, outra preocupação é o acúmulo de escória siderúrgica às margens do rio Paraíba do Sul, ameaçando a segurança hídrica do estado. Uma decisão judicial de 2019 condenou a CSN e a empresa Harsco por não cumprirem o prazo para redução das pilhas. Em caso de acidente, o abastecimento de água de 75% da população do Grande Rio seria comprometido

Apesar das sucessivas decisões judiciais que obrigam as empresas a reduzirem a montanha de escória, o problema ainda não foi resolvido. O temor é que com uma chuva intensa haja um desabamento. Alertas não faltaram, mas sim bom senso por parte da siderúrgica.

“A montanha de escória corresponde ao modus operandi da CSN, que é o de fazer o que bem entende na cidade. É difícil que haja um desmoronamento mas o solo é dinâmico. Além disso, mesmo que não caia sobre o rio, a água da chuva e o vento tendem a levar resíduos para o Paraíba do Sul”, salientou Michel Bastos, ex-analista ambiental do Inea do Médio Paraíba.

Além dos prejuízos à qualidade de vida da população, o quadro de poluição gerado pela CSN contrasta com a esperança provocada pela criação da usina na década de 1940. Foi um símbolo da industrialização e modernização do Brasil, chamuscado agora pela atraso tecnológico e o descaso sócio-ambiental.

Questionada sobre as questões relacionadas à poluição em Volta Redonda, a CSN não se pronunciou.

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